segunda-feira, 27 de outubro de 2014

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL


A Primeira Guerra Mundial foi, na época, o maior conflito bélico da história do ponto de vista do número de países envolvidos, de mortos e feridos, da natureza dos armamentos, da extensão da destruição e de seus efeitos sobre a civilização ocidental. A guerra começou nos Bálcãs, no dia 28 de julho de 1914, quando a Áustria-Hungria, aliada da Alemanha, declarou guerra à Sérvia, que tinha o apoio da Rússia. O conflito balcânico imediatamente transformou-se em uma guerra russo-germânica que, na primeira semana de agosto, acabou envolvendo a França e a Grã-Bretanha ao lado da Rússia. A Itália, uma aliada formal da Alemanha e da Áustria-Hungria, ficou neutra até 1915, quando traiu suas aliadas e passou para o lado adversário. Mas a guerra alastrou-se rapidamente para a Ásia: no final de agosto de 1914 o Japão entrou na guerra contra a Alemanha e, em outubro, o Império Turco Otomano entrou ao lado dela. Em 1917, os EUA e o Brasil declararam guerra à Alemanha. No decorrer do conflito, 24 países alinharam-se ao lado da Tríplice Entente, criando um bloco conhecido como os Aliados e Potências Associadas, constituído, entre outros, pela Grã-Bretanha e seu império (destacando-se o Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Índia e África do Sul), a França, Rússia, EUA, Itália, Japão, Sérvia, Bélgica, Portugal, Grécia, Romênia e o Brasil. Contra esse agrupamento ficaram apenas 4 países, as Potências Centrais: Alemanha, Áustria-Hungria, Turquia e Bulgária. Todos os beligerantes esperavam um conflito de curta duração, mas isso não se confirmou. A Grande Guerra prolongou-se por mais de 4 anos, dividindo-se em 3 fases:

1914-1916: os anos de impasse. Os principais combates ficaram concentrados na Europa, mas conflito europeu rapidamente atingiu as colônias na África e na Ásia assumindo uma dimensão mundial. As operações militares, entretanto, acabaram num impasse. A Alemanha invadiu e conquistou parte da Bélgica, da França e da Rússia mas não conseguiu derrotá-las. Por outro lado, a Entente também não conseguiu expulsar os alemães dos territórios ocupados e fracassou nas tentativas de invasão do Império Otomano. O resultado foi a construção de um gigantesca linha de trincheiras nas frentes de combate, com batalhas que causavam grande mortandade de soldados, numa escala até então nunca vista. A guerra, durando mais do que fora previsto, também causou uma grave crise econômica e política nos beligerantes, ficando claro que só seria vencida pelo lado que possuísse mais recursos, homens e apoio popular para suportar os efeitos catastróficos do conflito.

1917: o ano da mudança. No terceiro ano da guerra, ocorreram duas alterações estratégicas no rumo dos acontecimentos: a entrada dos EUA na luta contra a Alemanha e o colapso da Rússia. O Império Russo foi a primeira das grandes potências a desmoronar. Em março, estourou a Revolução Russa, precipitada pelos desastres militares do país, pela crise econômica e pela impopularidade do imperador Nicolau II. A monarquia foi derrubada, substituída por um governo provisório revolucionário que tentou manter a ordem no país e continuar a luta contra as Potências Centrais. Mas o caos político e as dificuldades econômicas e militares indicavam que, em pouco tempo, a Rússia sairia da guerra, favorecendo a Alemanha e aumentando suas chances de vencer o conflito.
Exatamente no momento em que a crise russa fortalecia a posição alemã, um outro fato beneficiou a Entente: em abril, os EUA, até então neutros, declararam guerra à Alemanha. Isso ocorreu por três motivos principais: (I) os laços econômicos entre os EUA e a Entente eram muito fortes. A Grã-Bretanha e a França tinham aumentado as importações de produtos norte-americanos durante a guerra e, principalmente, tinham contraído grandes empréstimos com os EUA. Uma possível derrota anglo-francesa no conflito, que parecia se configurar com a iminente saída da Rússia, resultaria num desastre econômico para os EUA. Impedir a derrota da Entente significava, assim, salvar os EUA de uma catástrofe econômica; (II) Os ataques dos submarinos alemães aos navios dos EUA que se aproximavam do litoral da Grã-Bretanha e da França para abastecê-las com mercadorias norte-americanas; (III) A descoberta de um plano alemão de aliança com o México contra os EUA.
A entrada dos EUA na guerra acabaria sendo decisiva para salvar a Grã-Bretanha e a França da derrota mas o peso da ajuda militar norte-americana só seria sentido no início de 1918. Até lá, as chances da Alemanha vencer o conflito cresceram. No segundo semestre de 1917, a Itália estava à beira de um colapso militar e os comunistas ou bolcheviques, liderados por Lênin, tomaram o poder na Rússia com a promessa de tirar o país imediatamente da guerra. De fato, no final daquele ano, a Alemanha havia, na prática, vencido a guerra na Europa Oriental.

1918: o ano da decisão. Em janeiro de 1918, no momento em que a guerra no Leste Europeu estava sendo vencida pelos alemães, o presidente dos EUA, Woodrow Wilson (1913-1921) anunciou uma proposta de paz, baseada em princípios liberais e internacionalistas, conhecida como os “14 Pontos”. Basicamente, ela defendia: o fim de pactos secretos e o estabelecimento de acordos abertos; a devolução dos territórios conquistados na guerra; uma nova ordem internacional baseada na autodeterminação dos povos, no desarmamentismo, na democracia e na liberdade comercial; e a criação de uma associação de nações para garantir a paz mundial. Wilson era um idealista, e acreditava que poderia dar um fim a guerra com uma proposta que pensava ser equilibrada e justa, “sem vencedores e perdedores”. Mas seus próprios aliados – a Grã-Bretanha, França e Itália, potências colonialistas que haviam feito acordos secretos e esperavam obter territórios e reparações de seus inimigos e ampliar seus impérios – e as Potências Centrais (Áustria-Hungria e Turquia eram impérios multinacionais contrários à autodeterminação dos povos) reagiram com desconfiança e pouco entusiasmo aos “14 Pontos”.
Na verdade, no primeiro semestre de 1918 as Potências Centrais estavam cansadas mas pareciam que iriam vencer o conflito militar. Em março, a Rússia saiu da guerra, derrotada pela Alemanha (Tratado de Brest-Litovsk). Outros dois membros dos Aliados – Sérvia e Romênia – também tinham sido derrotados e a Itália aparentemente caminhava para o mesmo destino. A Alemanha, num esforço supremo, lançou, em março-julho, uma gigantesca e decisiva ofensiva sobre os exércitos aliados no Norte da França. Os franceses e britânicos resistiram e a chegada de tropas norte-americanas reforçou as defesas, possibilitando um contra-ataque aliado a partir de agosto. Foi a virada da guerra. O contra-ataque aliado obrigou os alemães a recuarem e, o que talvez tenha sido mais importante, destruiu o moral do exército da Alemanha. Na mesma época, os aliados ajudaram a Itália a avançar sobre as forças austro-húngaras.
Entre agosto e outubro, a Alemanha, Áustria-Hungria, Turquia e Bulgária tinham atingido seus limites da capacidade de lutar. Suas forças estavam esgotadas, suas populações passavam fome, seus exércitos se amotinavam, ondas de greves paralisavam a produção, protestos populares exigiam a paz e as tropas aliadas avançavam sobre eles. Em 30 de setembro, diante do colapso do seu exército na ofensiva aliada na Macedônia, a Bulgária se rendeu. Em 30 de outubro foi a vez do Império Turco, após a vitória aliada na Palestina. Em 3 de novembro, a Áustria rendeu-se depois que várias revoluções nacionalistas fragmentaram o Império Austro-Húngaro e derrubaram a monarquia da dinastia Habsburgo. Finalmente, com o início da Revolução Alemã que derrubou o kaiser Guilherme II, o governo provisório revolucionário alemão rendeu-se em 11 de novembro. A Primeira Guerra Mundial tinha acabado e as Potências Centrais (e antes delas a Rússia) foram derrotadas. Entre 10 e 15 milhões de pessoas tinham sido mortas, cerca de 20 milhões foram feridas, muitas incapacitadas fisicamente ou mentalmente para o resto de suas vidas. A Europa estava mergulhada na crise econômica e a tradicional ordem política, sobretudo na parte central e oriental do continente, tinha desmoronado diante das revoluções nacionalistas e democráticas.

Consequências da Primeira Guerra Mundial

A crise econômica. A Primeira Guerra Mundial foi o conflito militar mais devastador da história, só superado pelos eventos de 1939-1945. A guerra causou uma crise econômica sem precedentes, sobretudo na Europa, devido à destruição material, aos gastos militares, aos danos no comércio e aos deslocamentos das atividades produtivas. Estima-se que, em valores da época, a guerra tenha custado cerca de 380 bilhões de dólares. Os beligerantes contraíram enormes dívidas, abandonaram o padrão-ouro (a conversibilidade da moeda a qualquer momento em ouro) e emitiram moeda desvalorizada, o que causou inflação e desestabilizou a economia. O resultado foi a destruição do sistema capitalista internacional desenvolvido no século XIX sob a hegemonia da Grã-Bretanha, baseado no livre-comércio, no padrão-ouro e no ideal do Estado mínimo sustentado pela estabilidade fiscal e monetária.

A ascensão dos EUA como principal potência econômica do mundo. A Primeira Guerra Mundial atingiu decisivamente os fundamentos do poder das potências europeias mas beneficiou os EUA. De fato, em 1914, a economia internacional estava sob a hegemonia da Grã-Bretanha, a nação que mais investia, emprestava e comerciava no mundo. Os EUA eram, então, um país devedor à Grã-Bretanha e à França. O conflito de 1914-1918 inverteu a posição dessas potências: os EUA pagaram sua dívida exportando para seus credores as mercadorias necessárias para o esforço de guerra, acumularam uma grande quantidade de ouro utilizado pela Entente para pagar as importações e passaram a emprestar dinheiro aos seus aliados europeus. A guerra diminuiu a presença europeia em importantes mercados regionais, como a América Latina – espaço rapidamente ocupado pelo comércio e capitais norte-americanos. Assim, em 1918, os EUA tornaram-se uma nação credora e passaram a deter simultaneamente a hegemonia financeira, comercial e industrial em escala mundial.
No entanto, a hegemonia econômica dos EUA depois da guerra não foi acompanhada por uma correspondente supremacia militar. De fato, a Grã-Bretanha, a França, a Itália e o Japão ampliaram seus impérios coloniais depois de 1918 e continuaram com o status de grandes potências industriais e imperialistas, com um poder militar que, de uma maneira geral, não era inferior ao norte-americano. Portanto, a ordem internacional continuou sendo multipolar, como antes da guerra. Mas no lugar da antiga hegemonia econômica da Grã-Bretanha do período 1815-1914, abalada profundamente pela guerra, a multipolaridade do período 1918-1939 ficou sob a supremacia econômica dos EUA.

A criação da URSS. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o primeiro e mais poderoso regime socialista da história, foi construída sobre as ruínas do Império Russo. A URSS surgiu em decorrência do triunfo dos comunistas ou bolcheviques que, liderados por Lênin, tomaram o poder durante a Revolução Russa de 1917. A revolução havia sido precipitada pela crise econômica, militar e política causada pela guerra, que destruiu a base de sustentação da monarquia da dinastia Romanov. Em março de 1917, o imperador Nicolau II foi derrubado e substituído por um governo provisório, com a participação de liberais e dos sociais-democratas. A insistência desse governo em continuar a guerra agravou a crise na Rússia, reduzindo o apoio popular que inicialmente ele havia obtido. Em novembro de 1917, os bolcheviques fizeram uma insurreição com apoio de soldados amotinados e de operários organizados em sovietes (“conselhos”) que derrubou o governo provisório e instalou a “ditadura do proletariado”. O novo governo revolucionário reconheceu a derrota da Rússia diante da Alemanha e iniciou a construção do regime socialista soviético, que deveria servir de base para a expansão da revolução comunista pela Europa.

A queda das monarquias das potências derrotadas. Primeiro na Rússia e depois na Áustria-Hungria, Alemanha e Turquia, a derrota militar combinada com a crise econômica e política gerada pela guerra destruíram a legitimidade dos regimes monárquicos nesses países, precipitando revoluções populares e nacionalistas que os derrubaram e instalaram repúblicas.

A dissolução de antigos impérios na Europa Oriental e no Oriente Médio. Resultado da derrota militar e das revoluções que derrubaram as monarquia imperiais na Áustria-Hungria e na Turquia, principalmente (onde a desintegração dos impérios foi total), e também na Rússia e Alemanha (onde a desintegração dos impérios foi parcial).

A formação de novos países. Em função do desmembramento dos antigos impérios na Europa Oriental e no Oriente Médio e do triunfo dos movimentos nacionalistas. Na Europa surgiram, ou ressurgiram, a Polônia (com territórios anteriormente dominados pela Rússia, Alemanha e Áustria-Hungria), Tchecoslováquia (com territórios da Áustria-Hungria), Iugoslávia (também com territórios da Áustria-Hungria unidos à Sérvia), Hungria e Áustria separadas, Finlândia (separada da Rússia), e os três países bálticos – Letônia, Lituânia e Estônia – também separados da Rússia. No Oriente Médio, ficaram independentes do Império Turco o Egito e a Arábia Saudita. Além deles, outros territórios turcos foram ocupados pela Grã-Bretanha, em geral na forma de protetorados, como a Jordânia (chamada inicialmente de Transjordânia, independente em 1946), o Iraque (independente em 1932), o Kuweit (independente em 1961) e a Palestina (um mandato britânico até 1947). A França ocupou também territórios turcos, como o Líbano (independente em 1943) e a Síria (independente em 1944).

A consolidação do Japão como principal potência asiática. O Japão tomou as colônias alemãs na China e no norte do Pacífico e transformou-se na terceira maior potência naval do mundo. Foi, depois dos EUA, o país mais beneficiado pela guerra de 1914-1918.

A Conferência de Paz de Paris (1919-1920). Foi uma assembleia que reuniu os vitoriosos (32 países Aliados e Associados) para formular os acordos de paz e construir a nova ordem internacional pós-guerra. Nenhum representante das Potências Centrais foi convidado para participar das discussões e a Rússia revolucionária, mergulhada na guerra civil, não compareceu. As negociações foram dominadas até abril de 1919 pelos “Quatro Grandes”: Wilson (presidente dos EUA), Clemenceau (primeiro-ministro da França, que presidiu a Conferência), Lloyd George (primeiro-ministro da Grã-Bretanha) e Orlando (primeiro-ministro da Itália). As discussões foram dificultadas pelos seguintes fatores: (I) os conflitos entre os objetivos divergentes dos “Quatro Grandes”, sobretudo entre os ideais de Wilson expressos nos “14 Pontos” e os interesses imperialistas dos seus aliados. A Itália, por exemplo, retirou-se da Conferência em abril de 1919, em protesto por não ter conseguido todos os territórios que esperava ganhar; (II) a pressão da opinião pública dos países europeus vitoriosos, movida pelo revanchismo, que exigia medidas duras sobre os derrotados, como a cobrança de indenizações e a tomada de territórios; (III) a incerteza sobre o futuro dos territórios do antigo Império Russo devido à guerra civil desencadeada pela Revolução Comunista.
No início da Conferência, Wilson parecia deter uma posição de dominância devido ao poder econômico norte-americano e à imagem moralmente positiva que os EUA tinham adquirido na Europa. O seu projeto para o mundo pós-guerra ficou conhecido como wilsonianismo ou internacionalismo liberal norte-americano, de forte cunho idealista: uma ordem internacional liberal que, por meio de uma Liga das Nações sob hegemonia norte-americana, garantisse a autodeterminação dos povos, a democracia, a liberdade econômica, a segurança coletiva e a paz mundial. A Liga das Nações, especialmente, deveria ser o pilar desse projeto; qualquer desvio que ocorresse na Conferência, qualquer injustiça que ela cometesse, pensava Wilson, seria no futuro corrigida pelas ações da Liga. Assim, o mais importante no projeto wilsoniano era garantir a criação da Liga das Nações. Por essa razão, o presidente norte-americano buscou um compromisso com as outras potências fazendo concessões aos interesses colonialistas e revanchistas dos seus aliados. O resultado foi a criação da Liga das Nações e a imposição de 5 tratados às potências derrotadas: o Tratado de Versalhes (Alemanha), o Tratado de Saint Germain (Áustria), o Tratado de Neuilly (Bulgária), o Tratado de Trianon (Hungria) e o Tratado de Sèvres (Império Turco). Todos eles implicaram em perdas territoriais, responsabilidades financeiras (as reparações de guerra) e restrições militares às Potências Centrais. Os tratados decepcionaram a opinião pública da França, da Grã-Bretanha e da Itália, que os consideraram por demais brandos, mas tiveram o efeito contrário entre os derrotados, que os acharam exageradamente severos, causando um forte ressentimento, sobretudo nos alemães e húngaros. Os EUA não assinaram os tratados e – o que foi mais importante – acabaram não entrando na Liga das Nações.
A Conferência de Paris reconheceu a independência de várias nações mas ela não conseguiu criar uma “paz justa sem vencedores e derrotados” e nem uma ordem internacional estável, principalmente na Europa Oriental. A redistribuição de territórios nem sempre seguiu o princípio da autodeterminação nacional e não resolveu os problemas das minorias étnicas – ao contrário, acabou agravando-o como no caso dos alemães que viviam na Tchecoslováquia e na Polônia, e dos húngaros na Romênia. A chamada “Questão Nacional” manteve-se inconclusa no Leste Europeu e transformou-se em uma das principais causas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O Tratado de Versalhes (28 junho 1919). Foi o tratado de paz com a Alemanha, imposto na Conferência de Paris, que também instituiu a Liga das Nações. O tratado foi assinado no aniversário de 5 anos do Atentado de Sarajevo. Entre as principais cláusulas que os alemães foram forçados a aceitar podemos destacar: (I) restituição à França da Alsácia-Lorena; (II) cessão de territórios à Bélgica, Polônia, Tchecoslováquia e Lituânia; (III) perda de todas as suas colônias, que passaram ao controle dos Aliados sob o sistema de mandatos; (IV) o porto de Danzig tornou-se uma Cidade Livre sob administração da Liga das Nações; (V) ocupação do distrito do Saar ou Sarre pela França por 15 anos, que teria o direito de explorar suas minas de carvão. Em 1935 seria feito um plebiscito na região para determinar seu futuro; (VI) desmilitarização da Renânia, região fronteiriça com a França e a Bélgica, que seria ocupada pelos Aliados por 15 anos para evitar no futuro novas agressões alemãs; (VII) redução drástica das forças armadas alemãs para 100 mil homens, abolição do serviço militar obrigatório, proibição de possuir diversos armamentos ( tanques, artilharia pesada, aviões de combate, armas químicas, submarinos ) e limitação da marinha de guerra; (VIII) proibição da união entre Alemanha e Áustria; (IX) o kaiser Guilherme II, que havia abdicado e se refugiara na Holanda, deveria ser julgado como criminoso de guerra; (X) a Alemanha teria que pagar aos Aliados reparações financeiras, fixadas depois em 33 bilhões de dólares (em valores da época). A Alemanha foi, assim, mutilada territorialmente e humilhada. Sob protestos, mas impotente, o governo democrático alemão de Friedrich Ebert foi obrigado a assinar o tratado. As exigências dos Aliados agravaram a crise econômica que a guerra havia causado à Alemanha e criaram um forte sentimento revanchista na opinião pública do país. Os nacionalistas mais radicais, como os nazistas, passaram a defender a anulação do tratado, o rearmamentismo e a recuperação, se necessário à força, dos territórios perdidos. Por essa razão, o Tratado de Versalhes costuma ser apontado como um dos principais motivos para a eclosão de uma nova guerra europeia desencadeada pela Alemanha, em 1939. No entanto, muitas decisões do tratado não foram cumpridas ou foram contornadas: Guilherme II nunca foi aprisionado e julgado (morreria em seu exílio na Holanda, em 1941), os militares alemães conseguiram driblar as cláusulas de desarmamento e a Alemanha obteve ajuda financeira dos EUA (que não aceitou o Tratado de Versalhes) e teve a maior parte de sua dívida perdoada.

A criação da Liga das Nações (1919). Instituída pelo Tratado de Versalhes, e conhecida também como Sociedade das Nações, a Liga era uma organização internacional que reuniu diversos países com o objetivo de zelar pela paz mundial e garantir a independência de seus membros por meio de mecanismos de cooperação e de segurança coletiva. Sua sede foi estabelecida em Genebra, na Suíça. Inspirada numa proposta do presidente Wilson dos EUA (mas também nas ideias de outros estadistas como Robert Cecil da Grã-Bretanha, Jan Smuts da África do Sul e Leon Bourgeois da França ), a Liga das Nações foi precursora da ONU, que a substituiu em 1945. Na prática, o seu órgão mais importante foi o Conselho, que incluía inicialmente 4 membros permanentes ( Grã-Bretanha, França, Itália e Japão ). Os EUA deveriam ter sido o 5o componente do Conselho mas o Senado norte-americano rejeitou o Tratado de Versalhes e a Liga das Nações numa votação histórica (19 de novembro de 1919). Com isso, o projeto idealista wilsoniano de uma nova ordem internacional liberal sob hegemonia norte-americana fracassou no próprio EUA, em grande parte devido à intransigência de Wilson nas negociações com os parlamentares da oposição (Republicanos) e do seu próprio partido (Democratas). Uma outra votação, no dia 19 de março de 1920, confirmou a decisão anterior do Senado. Assim, os EUA nunca assinaram o Tratado de Versalhes e nem entraram na Liga das Nações. O país retornou à sua tradicional neutralidade nas questões internacionais, sobretudo nas que diziam respeito a Europa, África e a maior parte da Ásia, embora esse isolacionismo tenha sido relativo e menos intenso do que no período anterior à Primeira Guerra Mundial. A ausência dos EUA enfraqueceu a Liga e tornou mais difícil o cumprimento dos seus objetivos.

O Tratado de Saint Germain-en-Layle (10 setembro 1919). Foi o tratado de paz imposto à Áustria, que havia se separado da Hungria no processo de dissolução do Império Austro-Húngaro da dinastia Habsburgo. Ele confirmou a desintegração daquele império, obrigando a Áustria a reconhecer a perda de territórios e a independência da Tchecoslováquia (com o antigo domínio austríaco da Boêmia e Moravia), da Iugoslávia (realizando o projeto da Sérvia de ficar com a Eslovênia e a Bósnia-Herzegovina) e da Polônia (que incorporou a Galícia). A Itália e a Romênia também obtiveram territórios austríacos. O tratado proibiu a união (Anschluss) da Áustria com a Alemanha e reduziu o exército austríaco.

O Tratado de Neuilly (27 novembro 1919). Foi o tratado de paz imposto à Bulgária, menos severo do que os outros. Mesmo assim, o país perdeu territórios para a Grécia e teve que reduzir seu exército.

O Tratado de Trianon (4 janeiro 1920). Foi o tratado de paz imposto à Hungria, separada da Áustria. Obrigou a Hungria a ceder territórios para a Tchecoslováquia (a Eslováquia e a região Cárpato-Ucraniana), Iugoslávia (a Croácia) e Romênia (a Transilvânia). O país também teve que diminuir seu exército. A Hungria perdeu mais da metade do território que controlava antes da guerra e ficou sem o acesso ao Mar Adriático, o que gerou um forte espírito revanchista entre os húngaros, tão intenso quanto o dos alemães.

O Tratado de Sévres (10 agosto 1920). Foi o tratado de paz imposto ao Império Turco Otomano mas que nunca foi ratificado. Os turcos perderam todos os seus territórios árabes, que foram ocupados pela Grã-Bretanha (Iraque, Kuweit, Palestina, Jordânia) e pela França (Síria, Líbano), ou ficaram independentes (Egito, Arábia Saudita). Além disso, tiveram que ceder outros territórios na Turquia propriamente dita para a Grécia, Itália e França. A Armênia também deveria ficar independente.
Se o tratado tivesse sido implementado integralmente o território turco teria ficado bem menor do que é hoje. Contudo, o tratado causou um grande ressentimento entre os turcos e, em 1919-1923, a Turquia ficou mergulhada numa revolução nacionalista liderada pelo general Mustafá Kemal ou Kemal Atatürk (1881-1938). Os nacionalistas estabeleceram um governo revolucionário em Ancara que se recusou a reconhecer o Tratado de Sévres, entrando em conflito com os gregos. Na Guerra Greco-Turca (1920-1922) os turcos recuperaram a maior parte dos territórios que haviam perdido para a Grécia. A vitória dos turcos também levou a Itália e a França a abandonarem as áreas que tinham ocupado na Turquia. A Armênia foi igualmente reconquistada em 1920-1921 e sua independência anulada, enquanto as forças turcas cometiam enormes atrocidades sobre a população do país, exterminando mais de 1 milhão de armênios (o genocídio armênio). A monarquia turca foi abolida em novembro de 1922 (derrubada do sultão Mohammed VI) e a Turquia transformou-se em uma república, com Atatürk confirmado como seu presidente com poderes ditatoriais (1923-1938). Dessa forma, a Turquia conseguiu negociar um novo acordo de paz, o Tratado de Lausanne ( 24 julho 1923): os turcos reconheceram a perda de suas províncias árabes mas recuperaram a Armênia e os territórios na Turquia, foram dispensados do pagamento de reparações e determinou-se uma troca de populações com a Grécia (1 milhão de gregos foram expulsos da Turquia e 350 mil turcos tiveram que sair da Grécia). A Turquia foi, assim, a única potência derrotada na Primeira Guerra Mundial que conseguiu a anulação de um tratado imposto pelos vitoriosos e sua substituição por um outro mais aceitável aos perdedores, depois de uma discussão entre as partes interessadas.

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