sábado, 16 de julho de 2011

5ª séries: Povo Hitita

O nome "hitita" procede do Antigo Testamento, onde os habitantes com esse nome surgem a desempenhar dois papéis diferentes: primeiro, como uma das nações pré-israelitas da terra de Canaã e, em segundo lugar, como um grupo de reinos situados a norte de Israel, na atual Síria, cujos reis estabeleceram relações com Salomão e com os faraós do Egito. As fontes assírias posteriores chamam ao conjunto desta área "Hatti", mas os seus habitantes não constituíam nessa época uma nação e eram de origem e língua mistas. De facto, tinham herdado o nome e grande parte da sua civilização do reino primitivo de Hatti, conhecido para os egípcios como "Kheta", localizado no Norte da Ásia Menor (Anatólia), reino que floresceu durante cerca de quinhentos anos (c. 1700-1190 a. C.) e que chegou a ser uma das grandes potências da Ásia ocidental antiga. Dada a sua grande importância histórica, os súbditos deste grande reino são conhecidos, na atualidade, como "os hititas".
Os habitantes desta zona falavam hattili no terceiro milénio a. C. e, portanto, ter-lhes-ia sido atribuído o nome de "hattis" se não tivessem sido absorvidos pelo povo do reino posterior, cuja capital era Hattush. Não obstante, o povo do reino falava nasili (a língua da cidade de Nesa). Esta língua "nesita" conhece-se atualmente como hitita, enquanto que aqueles que falavam o hattili eram conhecidos como hattis. O hitita ou nesita é uma língua de estrutura indo-europeia que deve ter sido introduzida na Ásia Menor por gentes indo-europeias. Estes povos fixaram-se, em número considerável, entre a população hatti e dominaram-na até ao momento em que surgiu a dinastia que fundou o reino de Hattush (c. 1750 a. C.).
Entre os seus arquivos reais, os hititas preservaram documentos de uma época em que os seus reis tinham governado a partir de uma cidade chamada Kussara, cuja localização nos é desconhecida. A partir desta cidade, um dos seus primeiros reis, Anitta, começou a estender o seu domínio conquistando primeiro a cidade de Kanesh (provavelmente tratar-se-á de Nesa) e depois Hattush, que acabou por ser destruída.
Entre Anitta e a fundação do reino hitita existe um hiato de várias gerações. A política de expansão foi continuada por outro rei de Kussara, Labarna, cujo filho, também chamado Labarna, decidiu reconstruir e ocupar Hattush, bastião natural que dominava os vales do Norte. A cidade, desde então, tornou-se conhecida como Hattusa ou Hattusas, e em honra do acontecimento o rei alterou o seu nome para Hattus-il-is ("homem de Hattusa").
Este rei, Hattusili I, foi o autêntico fundador do reino hitita. Depois de consolidar o seu domínio sobre as cidades vizinhas da meseta a sul de Hattusa, pôs em marcha um ambicioso programa de conquista. O seu exército atravessou a barreira das montanhas do Aturo, contemplando o Mediterrâneo pela primeira vez. Hattusili rumou para este, dominando o Norte da Síria, ocupada então pelos reis de Alepo, e regressou com escribas para criar uma escola de escrita cuneiforme na capital hitita.
O seu sucessor, Mursilis I, conseguiu derrotar o poderoso reino de Alepo. A seguir, dirigiu-se para o Eufrates e conquistou o reino da Babilónia, proeza que seria lembrada com orgulho pelas gerações posteriores.
Não obstante, os hititas tinham ido muito para além das suas possibilidades. No seu regresso foram atacados pelos hurritas, uma nação que se tinha estabelecido recentemente nas regiões montanhosas do alto Eufrates e Tigre, e, ainda que tenham conseguido evitar o ataque, o reino tinha-se debilitado pela ausência do rei, que foi assassinado. Este crime deu início a um período de assassinatos e intrigas palacianas, durante o qual os hititas não conseguiram conservar as suas conquistas. A destruição de Alepo tinha criado um vazio político e a Síria caiu nas mãos dos hurritas.
A estabilidade foi restabelecida por volta de 1525 a. C. pelo rei Telipinu, que promulgou uma estrita lei de sucessão e tomou medidas muito enérgicas para suprimir a violência.
Nos finais do reinado de Telipinu, houve um período obscuro de sessenta anos. Por volta de 1450 a. C., subiu ao poder uma nova dinastia em que aparecem os nomes de Tudhalya e Arnuwanda. O primeiro, Tudhlaya, conduziu campanhas vitoriosas para este e oeste, mas os seus êxitos foram efémeros. Durante o reinado do seu filho, Arnuwanda, o reino teve que enfrentar uma nova ameaça, o aparecimento no Norte de um novo grupo bárbaro "kaska". Os inimigos pressionavam por todos os lados, levando quase ao desaparecimento do reino.
Nesse momento (c. 1380 a. C.) acedeu ao trono um rei de uma extraordinária valia. Sob a direção de Suppiluliuma I, os hititas recuperaram da catástrofe e em pouco mais de cem anos construíram um império que, durante um curto período, se converteu em rival do Egito e da Babilónia.
O filho e sucessor de Suppiluliuma, Mursili II, completou a obra de seu pai subjugando o reino ocidental de Arzawa. Não se conhece com precisão o marco geográfico desta zona, mas podemos adiantar que Apasas, a capital de Arzawa, não correspondia a Éfeso. O império hitita tinha alcançado a costa do Egeu no reinado de Mursili II.
O sistema de reinos vassalos reforçava-se, especialmente no Norte, com guarnições militares hititas e, na Síria, com a presença de um vice-rei hitita, que governava na nevrálgica cidade de Karkemish. De qualquer forma, o império careceu de estabilidade e estalaram rebeliões frequentes que exigiram a intervenção ativa do rei.
O reinado do rei seguinte, Muwatalli, constituiu uma prova de força com os egípcios que, durante a época de Ramsés II, pretenderam recuperar as suas antigas possessões sírias. O rei hitita exigiu aos seus vassalos que cumprissem os seus deveres militares e atacou de improviso o exército egípcio. Os egípcios conseguiram retirar-se com sucesso da emboscada, mas a batalha de Kadesh (c. 1285 a. C.) confirmou aos hititas o seu controlo sobre a Síria e serviu para criar uma situação de equilíbrio entre as duas potências.
À morte de Muwatalli, e após disputas pelo trono, sucede-lhe o seu irmão, Hattusili III, que inaugurou uma época de relações amistosas com os monarcas do Egito e da Babilónia. No interior, partilhou o seu poder com a sua esposa, Puduhepa, conhecendo o reino hitita a etapa de maior prosperidade. A paz com o Egito foi selada pelo matrimónio de uma princesa hitita com Ramsés II.
A paz e a prosperidade continuaram durante o reinado de Tudhalya e o império sírio permaneceu firmemente nas mãos dos hititas. Tudhalya dedicou grande parte da sua atenção à realização de uma reforma religiosa, e talvez tenha sido ele quem ordenou a realização das esculturas de Yazilikaya, um santuário situado próximo da capital e um dos monumentos mais emblemáticos da arte hitita.
O seu filho, Arnuwanda III, morreu depois de um curto reinado e sucedeu-lhe o seu irmão Suppiluliuma II, atravessando nesta altura o reino um período de instabilidade. Os documentos egípcios do reinado do faraó Ramsés III mencionam como os "povos do mar" e os seus aliados irromperam através da Síria e foram detidos na fronteira do Egito em 1182 a. C. O reino hitita acabou por ser submergido pelas movimentações destes povos no Médio Oriente nessa altura, bem como pelos contra-ataques egípcios. Só algumas décadas mais tarde, um rei assírio, que realizava uma campanha no alto Tigre, se confrontou com hordas de Kaska e Muski. A referência aos Kaska leva-nos a pensar que este antigo inimigo se tinha aliado para destruir o país de Hatti.
Nos séculos seguintes, as regiões da Síria, outrora dominadas pelos hititas, constituíram-se em reinos separados, em que a tradição hitita se eclipsou face ao afluxo de arameus, procedentes das abruptas regiões do este.
A herança hitita nestes principados manifesta-se, para além da escrita, numa forte tradição artística e na continuação dos nomes reais como Lubarna, Sapalulme, Mutallu e Katuzili. Um atrás do outro, sucumbiram à poderosa máquina de guerra assíria e, por volta do ano 700 a. C., todos esses principados tinham sido incorporados no império assírio. São os governantes destes reinos os que aparecem na Bíblia como "reis dos hititas".
A população hitita era constituída, na sua grande maioria, por camponeses, que cultivavam cevada e trigo, vinha e árvores de fruto e que cuidavam de rebanhos de ovelhas e de vacas. Os artesãos ocupavam um lugar importante na sociedade, especialmente os oleiros, sapateiros, carpinteiros e ferreiros. A forma de intercâmbio era a prata, que abundava nas montanhas do Taurus, desconhecendo-se no entanto como é que os reis hititas controlavam esta fonte de riqueza.
O rei era o governante supremo, chefe militar, autoridade judicial e sumo sacerdote. Estava rodeado por um amplo círculo de nobres e dignatários que, especialmente nos primeiros tempos, detinham um poder considerável. O rei confiava o governo das cidades e províncias mais importantes a membros da sua própria família, que ficavam ligados a ele por laços de homenagem e fidelidade.
As grandes façanhas guerreiras dos hititas devem-se, em grande parte, à utilização do carro de combate. O carro ligeiro, puxado por cavalos, uma criação do segundo milénio a. C., foi desde logo adotado pelos exércitos hititas.
Em termos de religião, a preocupação essencial deste povo era a de assegurar o favor do deus local, que era, na maioria dos casos, um deus da fertilidade, que controlava o tempo meteorológico.
A arte e a arquitetura hititas têm uma ligação estreita com a religião. Os templos escavados na capital são complexos edifícios de forma poligonal, que se desenvolvem à volta de um pátio central. O acesso ao santuário, que continha a estátua de culto iluminada por aberturas amplas, fazia-se indiretamente através do pátio e no templo principal existiam santuários iguais para o casal divino.
Os reinos que sucederam os hititas na Síria conservaram a tradição das figuras divinas e das cenas de culto, mas esta arte ficou, cada vez mais, sob a influência da Assíria, tanto no estilo como nos temas.